‘Acordei com o mundo de cabeça para baixo’, diz técnica de enfermagem após 18 dias intubada

Emanuelle perdeu a irmã e os avós para a Covid, em um intervalo de 17 dias.

A Covid-19 deixou muito mais do que sequelas na vida da técnica de enfermagem Emanuelle Tomaz, de 34 anos, moradora de Jaguariúna (SP). A doença que a manteve 18 dias intubada matou, em um intervalo de 17 dias, os avós e a irmã. Todos moravam na mesma casa. “Infelizmente tive todas essas perdas em um curto intervalo de tempo, dormi e acordei com o mundo de cabeça para baixo. Três pedaços de nós acabaram indo e hoje só fica a saudade”, diz.

Os avós da profissional da saúde, Valdemar e Regina Tomaz, de 79 a 78 anos, morreram em um intervalo de apenas um dia (19 e 20 de março). Já a irmã, a técnica de nutrição Hellen Tomaz, de 31 anos, veio a óbito em 5 de abril.

Emanuelle, que apresentou sintomas da doença seis dias após tomar a 2ª dose da vacina contra a Covid-19, acredita ter sido infectada pela avó, que tinha acabado de voltar de Campinas (SP), cidade vizinha a Jaguariúna. “Estava cuidando da minha avó que já estava com o vírus há alguns dias”, explica.

De acordo com especialistas, o sistema imunológico leva, em média, duas semanas para criar anticorpos neutralizantes, capazes de barrar a entrada do vírus nas células. Por isso, a recomendação dos médicos é que todos os cuidados para evitar a disseminação do vírus sejam mantidos mesmo após a vacinação, como o uso de máscara e a higienização das mãos.

Técnica em enfermagem ao lado da filha, após receber alta depois de ficar intubada durante 18 dias no Hospital Municipal da cidade — Foto: Emanuelle Cristine Tomaz/Arquivo Pessoal

‘Pessoas amadas’

Emanuelle conta que a avó foi a primeira a sentir os sintomas, e como toda a família mora na mesma casa, logo todos foram contaminados. “Começou pela minha avó, depois foi eu, no dia seguinte meu avô, na sequência minha irmã e por último minha prima, que também mora aqui com a gente e só apresentou sintomas leves”, lembra. A prima, aliás, contraiu a Covid-19 pela segunda vez.

Os únicos que moram no imóvel e não contraíram a Covid-19 foram os pais da técnica de enfermagem e sua filha de 8 anos. Todos os infectados apresentaram, no começo, sintomas leves como tosse, cansaço, dor de cabeça e febre. Em pouco tempo, os sintomas se agravaram e os quatro precisaram ser internados — todos pertenciam a grupos de risco.

A avó de Emanuelle ficou 17 dias internada, e o avô 13 dias. “Na noite que minha avó faleceu, os médicos contam que meu avô acordou e chamou por ela”, conta Emanuelle. Já a irmã da técnica de enfermagem ficou 28 dias intubada e chegou a realizar uma traqueostomia, mas não resistiu e morreu no dia 5 de abril.

Ainda assimilando tantas perdas, Emanuelle lembra com carinho dos avós e da irmã. “Difícil descrever pessoas que amamos e perdemos há pouco tempo, mas são pessoas amadas, felizes, sorridentes, de bem com vida, que amavam viver cada momento como se fossem únicos, tinham sede por viver e por onde passavam, deixavam seu carisma e sua alegria, assim como são lembrados por todos que os conheceram em vida.”

Somente os pais e a filha de Emanuelle (ao centro) não foram infectadas pela Covid-19 — Foto: Emanuelle Cristine Tomaz/Arquivo Pessoal

Recuperação

Apesar da alta hospitalar da Covid-19, a profissional de saúde ainda apresenta sequelas da doença. Segundo Emanuelle, o processo de recuperação tem sido bem lento. “Tive alta e mal consegui me mexer. O uso das medicações durante a intubação me fizeram perder mais de 10 quilos”, relata.

Atualmente ela realiza sessões de fisioterapia periódicas para recuperar a função motora. Com o conhecimento profissional e a experiência trágica vivida, Emanuelle faz um apelo às pessoas para que se cuidem. “Gostaria de pedir e reforçar a todos para redobrar o cuidado, infelizmente o vírus está no ar. Cuidem-se, usem máscara, lavem as mãos, abusem do uso de álcool em gel e ao chegar da rua, coloquem as roupas para lavar e tome banho”, explica.

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ÁGIL DPVAT