Especialista destaca a evolução da segurança das urnas eletrônicas e aponta que principal desafio atual está na integridade do ambiente informativo.
As eleições gerais de 2026 deverão trazer novos desafios para a democracia brasileira, especialmente no combate à manipulação de informações, à desinformação e ao uso indevido de tecnologias como a inteligência artificial. A avaliação é do advogado Dr. Willian Cassiano, que analisa a evolução do sistema eleitoral brasileiro e os mecanismos desenvolvidos pela Justiça Eleitoral para garantir a segurança e a legitimidade dos pleitos.
Segundo o advogado, o Brasil se consolidou como referência internacional no processo eletrônico de votação. A preocupação com a segurança, a lisura e a possibilidade de fiscalização do sistema, entretanto, não é recente e vem sendo construída há décadas.
A automação do processo eleitoral começou a ganhar força em 1986, com a consolidação do cadastro único e automatizado de eleitores. Em 1994, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realizou o processamento eletrônico do resultado das eleições gerais com recursos computacionais próprios. A utilização das urnas eletrônicas nas eleições municipais de 1996 representou outro importante marco dessa evolução.
Sistema eleitoral passou por testes e fiscalizações
Dr. Willian Cassiano ressalta que a confiabilidade do sistema eletrônico também foi submetida a avaliações técnicas ao longo dos anos. Em 2002, por exemplo, o então presidente do TSE, ministro Nelson Jobim, solicitou à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) uma análise sobre possíveis vulnerabilidades do sistema eletrônico de votação.
O relatório concluiu que o sistema implantado a partir de 1996 era robusto, seguro e confiável para atender aos requisitos do processo eleitoral brasileiro.
Além das avaliações técnicas, o TSE permite a fiscalização dos softwares utilizados nas eleições por diferentes instituições e entidades, entre elas partidos políticos, Ministério Público, Polícia Federal, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e representantes da sociedade civil.
Outro mecanismo citado pelo advogado é o Teste Público de Segurança (TPS), criado para permitir que especialistas e instituições procurem identificar eventuais vulnerabilidades nos sistemas eleitorais. A iniciativa passou a integrar de forma permanente o calendário da Justiça Eleitoral.
A importância desses testes foi destacada pelo ministro Ricardo Lewandowski em 2009, durante julgamento de uma petição apresentada por partidos políticos. Na ocasião, o ministro afirmou que a realização dos testes de segurança ultrapassa o interesse das legendas e assume caráter de interesse público.
Desinformação passa a ocupar o centro do debate
Para Dr. Willian Cassiano, embora a segurança tecnológica das urnas seja constantemente submetida a mecanismos de fiscalização, o principal desafio contemporâneo está no ambiente informativo.
As eleições de 2018 e 2022 demonstraram, segundo a análise, o impacto que a disseminação de informações falsas pode provocar no processo democrático, principalmente por meio das redes sociais e aplicativos de mensagens.
O advogado recorre ao pensamento da filósofa Hannah Arendt para explicar os riscos provocados pela perda da distinção entre fatos e ficção. Para Arendt, a manipulação da verdade factual pode comprometer a capacidade da sociedade de compreender a realidade e tomar decisões políticas de maneira consciente.
Nesse contexto, a desinformação não representa apenas a circulação de uma informação incorreta, mas pode ser utilizada de maneira deliberada como instrumento de disputa política e de influência sobre o eleitorado.
Inteligência artificial amplia preocupação para 2026
Com a aproximação das eleições de 2026, a discussão ganha um novo elemento: o avanço da inteligência artificial.
A tecnologia permite produzir imagens, vídeos, áudios e textos com elevado grau de realismo, aumentando o risco de conteúdos falsificados serem apresentados aos eleitores como se fossem verdadeiros.
Diante desse cenário, a Justiça Eleitoral vem ampliando mecanismos de cooperação com empresas de tecnologia e plataformas digitais, buscando combater conteúdos enganosos e o uso indevido de inteligência artificial durante a campanha eleitoral.
O enfrentamento à desinformação está inserido no Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação, instituído pelo TSE, que tem entre seus objetivos proteger a integridade do processo eleitoral, as instituições e a legitimidade dos resultados.
Defesa da democracia exige participação e fiscalização
Na avaliação de Dr. Willian Cassiano, a proteção do processo eleitoral não deve ser compreendida apenas como uma questão relacionada ao funcionamento das urnas eletrônicas.
O desafio atual envolve também a qualidade das informações que chegam aos eleitores e a capacidade da sociedade de diferenciar fatos comprovados de conteúdos manipulados.
Com a campanha eleitoral de 2026 marcada pela presença cada vez maior das redes sociais e das ferramentas de inteligência artificial, o combate à desinformação deverá ocupar espaço central no debate democrático.
A análise do advogado reforça, portanto, que a segurança das eleições depende não apenas de mecanismos tecnológicos de proteção, mas também de transparência, fiscalização institucional, responsabilidade das plataformas e, principalmente, da capacidade do eleitor de buscar informações confiáveis antes de tomar sua decisão nas urnas.



