Após ser afastado das ruas, delegado que virou ‘celebridade’ na web pede licença de dois anos

Advogado do delegado alega que pedido de licença, que já foi deferido pelo estado, foi feito por motivos de cunho pessoal.

Por G1 Santos  — O delegado Carlos Alberto da Cunha, da 4ª Seccional do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo, pediu dois anos de licença do cargo. O pedido foi deferido pelo estado e a confirmação foi divulgada no Diário Oficial. ‘Da Cunha’ já havia relatado pelas redes sociais que estava afastado das ruas após dizer publicamente que há ‘ratos’ na polícia.

O advogado do delegado, Alexandre Calixto, confirmou que a autoridade policial pediu licença não remunerada do cargo por dois anos e informou que “o pedido se deu por motivos de cunho pessoal”.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) reforçou que o policial civil pediu licença do cargo para tratar de assuntos particulares, conforme determina a alínea B do inciso XVII do artigo 23 do decreto 52.833/2008. Destacou também que ele responde a procedimento administrativo disciplinar junto ao órgão corregedor da instituição. Segundo a SSP, as medidas adotadas são previstas na legislação.

Há algumas semanas, o delegado relatou em seu perfil oficial das redes sociais que foi afastado das ruas e teve de entregar armas e distintivo, após uma declaração feita durante participação em um podcast com o vereador e ex-PM Gabriel Monteiro (PSD). De acordo com o delegado, que soma milhares de seguidores nas redes sociais, o afastamento ocorreu após ele afirmar que há “ratos” na polícia.

Nascido em Santos, no litoral de São Paulo, o delegado ‘da Cunha’, de 43 anos, atua na corporação há 16, quando decidiu deixar a carreira de oficial do Exército para entrar na Polícia Civil. Da Cunha vem fazendo sucesso nas redes sociais com vídeos que mostram operações policiais e o dia a dia dos agentes da Segurança Pública de São Paulo. A ideia para o canal, segundo ele, partiu da vontade de divulgar o trabalho da polícia na internet.

Afastamento

No dia 3 de junho, o delegado participou de um podcast com Gabriel Monteiro. Na gravação, em determinado momento, o vereador aconselha que jovens não entrem para a polícia, alegando que ser policial é uma profissão difícil, de pouco reconhecimento, e “que há grande corrupção no alto escalão da PM do Rio de Janeiro”. Em seguida, o vereador questiona o delegado sobre a situação em São Paulo, e da Cunha responde:

“A gente tem que ir para a polícia. O que a gente não pode é deixar de ir para a polícia, porque os ratos continuam mandando, tem que começar o processo de expulsão de rato. Quem é correto trabalha, e o rato que corra. A gente tem que estar aqui na internet ganhando poder e crescendo, para as raposas que estão embrenhadas lá em cima, mamando nas tetas há anos, para enxotar elas. Porque se não enxotar essa podridão, não tem como fazer segurança, tem que aposentar. ‘Ó, quantos anos você tem? 55, 60? Cara, 60 não é mais na polícia. Se tu tá com 60 e está na polícia, é porque tu tem algum outro interesse, porque você não está afim de correr atrás de vagabundo’. Vai dar aula na faculdade, vai desenvolver outra atividade intelectual, vai ser advogado, secretário, qualquer coisa, mas para ser polícia, você tem que ter um motivo”.

Em seu canal no YouTube, o delegado afirmou que foi afastado das ruas por conta dessa alegação. Além do afastamento, de acordo com ele, lhe foi imposto que entregasse as armas e o distintivo.

Ainda de acordo com o delegado, apesar de ter entregue três armas a que tinha direito como autoridade policial, ele ainda tem uma arma particular, da qual tem autorização de uso.

Defesa explica

O advogado do delegado confirmou que a decisão que designou Carlos Alberto da Cunha para o exercício de atividades exclusivamente burocráticas, bem como a entrega de armas e distintivo, se deu por conta da entrevista divulgada no programa de podcast, por suposto uso de linguagem inadequada e comentários depreciativos à imagem institucional.

“Tal decisão coloca em risco a segurança pessoal do doutor Carlos Alberto da Cunha, que durante anos trabalhou em diversos departamentos da Polícia Civil do Estado de São Paulo no combate ao crime organizado. Estamos tomando as medidas cabíveis visando reverter tal decisão”, alegou a defesa.

De acordo com o advogado, o delegado responde a outros processos administrativos, todos ligados a declarações dadas em suas redes sociais. “Entretanto, tais procedimentos ainda estão em fase de apuração, e não têm ligação com essa decisão que o designou para realização de atividades exclusivamente burocráticas”, destacou.

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ÁGIL DPVAT