Conteúdo estava guardado na sede do Instituto Hilda Hilst, em Campinas. Cartas reúnem relatos de 1970 a 1992 da escritora para José Luis Mora Fuentes.

Os pardais continuam a mesma coisa apesar da limpeza do forro, pernilongos à noite, televisão sem cor, lua crescente, mistérios e o de sempre tudo como desde há muito. Você nunca leu essa frase, mas provavelmente conhece quem a escreveu. Ela é de Hilda Hilst, uma das mais aclamadas escritoras do século XX, e está presente em uma das cartas que a autora de 41 títulos originais trocou com o também escritor José Luis Mora Fuentes. Inédito, o conteúdo estava guardado em uma caixa no Instituto Hilda Hilst, em Campinas (SP), e agora vai virar peça de teatro pelas mãos de um grupo de atores de Minas Gerais.

A responsável por levar os relatos inéditos e íntimos de Hilda e Fuentes à dramaturgia é Paula Santiago. A atriz, fã da escritora há dez anos, sempre teve vontade de levar para o cinema ou teatro a obra da autora, mas emperrava em questões econômicas. Ao ter um contato com Daniel Fuentes, filho de José Luis e presidente do instituto, ela ficou sabendo das cartas inéditas e começou, em janeiro, a se debruçar nos documentos para escrever o roteiro da peça.

“A Hilda mudou a minha vida, tanto a obra dela como as cartas que ela e o Fuentes trocaram. O conteúdo humano disso é riquíssimo. Esses textos mudaram a minha perspectiva de enxergar o mundo. Me fizeram ver o mundo com mais lucidez. A relação dois é encantadora, é uma relação de muita cumplicidade, muita amizade, é um contato muito especial que eles fizeram. Um é tudo para o outro”, disse Paula.

A montagem da peça

A atriz, que também atua profissionalmente como advogada, reuniu outros quatro atores e uma diretora, com quem já havia trabalhado, para começar os ensaios e a leitura das cartas. A obra, que vai se chamar Absentia – uma referência em latim para o termo “ausência” – vai falar do encontro entre os dois artistas, da sensação de saudosismo que cartas naturalmente trazem e da participação de um no processo criativo do outro.

A previsão de estreia é para o início de 2019, mas os fãs da escritora vão poder sentir o gosto de como será a obra na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece de 25 a 29 de julho no município do Rio da Janeiro. Os atores vão fazer intervenções com leituras de algumas cartas durante o evento, que na edição 2018 homenageia Hilda Hilst. A ação é só uma das comemorações dedicadas à escritora durante os cinco dias de Flip.

“É bom que essa leitura na Flip vai servir como uma espécie de ensaio para a peça e nós vamos ter a oportunidade de decidir algumas coisas. Como, por exemplo, a questão cronológica. Na leitura a gente vai abordar três ‘Hildas’ diferentes que existem nas cartas, uma mais jovem, outra com meia idade e outra mais velha. Na peça, provavelmente, não vai haver essa cronologia, pra não ficar muito didático e empobrecer a obra”, afirmou a atriz e roteirista.

Grupo de atores durante ensaio para levar as cartas de Hilda Hilst ao teatro (Foto: Daniel Fuentes)

As cartas

As cartas que Hilda e Fuentes trocaram nunca sairiam de dentro da caixa se não fosse Daniel Fuentes. Responsável por cuidar do acervo do instituto, localizado na Casa do Sol, propriedade que foi residência de Hilda por 40 anos, ele permitiu que as cartas fossem divulgadas pela primeira vez na peça de teatro por achar que a dramaturgia trata a literatura de um jeito “único”.

Daniel mantém uma relação próxima com Hilda desde o próprio nascimento. Filho de José Luis Fuentes com Olga Bilenky, ele cresceu na Casa do Sol convivendo com a escritora e por isso se tornou herdeiro de seus direitos autorais. O casal foi amigo de Hilda e conviveu com ela e outros artistas na propriedade durante décadas. Apesar do relacionamento que a escritora viveu com Fuentes por um período – o que originou algumas das histórias presentes nas cartas – a amizade entre Hilda, Olga e José Luís não se abalou e manteve sólida até o fim.

Fim para Hilda e Fuentes, já que a escritora morreu em 2004 de falência múltiplas dos órgãos, enquanto o escritor, que nasceu na Espanha, chegou ao final da vida em 2009. Restou a Olga se apegar as memórias, físicas e afetivas, para manter o marido e a amiga próximos. Ela mora atualmente na Casa do Sol e reúne com carinho, além das cartas, um enorme acervo de fotos, desenhos e obras dos dois.

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