Brasil foi o país onde número de transplantes mais caiu na pandemia

País teve redução foi de 29%, quase o dobro da média de 22 países pesquisados.

SÃO PAULO — Em um grupo de 22 países pesquisados, o Brasil foi aquele onde o maior número de pessoas deixou de fazer cirurgias de transplantes por causa da pandemia. De acordo com estudo divulgado ontem por um consórcio internacional de cientistas, o país fez no ano passado 2.174 cirurgias a menos dessa categoria, em relação ao ano anterior.

Essa redução, que representa queda de 29% entre 2019 e 2020, não é a mais preocupante do mundo, mas é quase o dobro da média global medida na pesquisa, uma queda de 16%. Esses números são relativos aos transplantes de rim, fígado, pulmão e coração.

Segundo o estudo, liderado pelo centro de pesquisa em transplantes da Universidade de Paris, alguns países conseguiram minimizar o transtorno da Covid-19 nos transplantes, mas todos sofreram em alguma medida.

Entre as nações que se saíram relativamente bem estão os Estados Unidos (queda de 4%) e a Alemanha (queda de 11%). Entre os latino-americanos, o Brasil não foi o mais atingido. A situação foi pior no Chile e na Argentina (quedas de 54% e 61%). O país que mais sofreu com o problema foi o Japão (queda de 67%).

Nos 22 países pesquisados, mais de 11 mil transplantes deixaram de ser feitos. Como pacientes na fila do transplante são sobretudo doentes terminais, pesquisadores estimam que essa lacuna significa uma enorme redução coletiva de sobrevida. Somado, o tempo de vida perdido por esses pacientes com o atraso dá mais de 48 mil anos.

Apesar de o número do Brasil não estar proporcionalmente entre os piores, o impacto verificado no país é grave em vista do tamanho da fila dos transplantes. O país entrou na pandemia com cerca de 45 mil pacientes esperando por cirurgias.

Rede de profissionais

A desaceleração sofrida por cada um dos países foi, de forma geral, proporcional ao impacto da Covid-19 nesses locais.

— A gente nota que existe uma correlação com o desenvolvimento da pandemia nos países. O nosso foi mais acometido do que os outros pela Covid-19, e isso acabou impactando na nossa atividade de transplantes — diz Gustavo Fernandes Ferreira, vice-presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos.

O médico, nefrologista da Santa Casa de Juiz de Fora, compilou os dados do Brasil usados no estudo internacional. Os resultados estão em estudo publicado nesta semana pela revista Lancet Public Health. Ferreira explica que, por envolver uma rede complexa de médicos e profissionais de saúde, o cenário de transplantes se mostrou particularmente vulnerável à pandemia:

— Um programa de transplante requer desde identificação de doador, e a organização de procura de órgãos envolve muitos profissionais, para fazer o protocolo de morte encefálica e obter autorização familiar para doação. Muitos profissionais que fazem isso foram deslocados para outras atividades.

Pico em abril

Além disso, como os doadores são essencialmente pacientes que morrem quando internados em UTIs, o país levou um tempo até que houvesse segurança para outros profissionais além das equipes intensivistas trabalharem nesse ambiente. O grande impacto nos transplantes se deu nos picos da pandemia no país, em abril/maio do ano passado.

— Com o tempo e a possibilidade de fazer teste de PCR para Covid-19 em todos os doadores, fomos reestruturando o programa brasileiro de transplantes — diz o médico.

A conta do atraso também foi impactada pela segunda onda da Covid-19 neste ano, que ainda está sendo dimensionada.

Nas cirurgias para os quatro órgãos cobertos pela pesquisa, o Brasil teve um impacto mais acentuado nos transplantes de pulmão (-57%) e rins (-33%). No caso do transplante pulmonar, o impacto se dá principalmente pela complexidade da cirurgia e da capacidade restrita no país. Só São Paulo, Rio Grande do Sul e Ceará têm hospitais que fazem a cirurgia.

Com o transplante de rins, procedimento menos complexo, o principal problema foi a falta de órgãos doados.

— Para cada doador que deixa de doar, perdemos dois rins. Além disso, 20% dos órgãos estavam vindo de doadores vivos, e essas doações ficaram suspensas para não expor os doadores — explica Ferreira.

Segundo o médico, para evitar novos problemas no setor de transplantes, é preciso que o país mantenha a Covid-19 sob controle e que o país tenha alta taxa de vacinados, sobretudo porque os pacientes transplantados são imunocomprometidos e a vacina tem baixa eficácia para eles.

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ÁGIL DPVAT