Casal acusado de armar estupro por app se defende: ‘Tudo foi consentido’

Casal suspeito depôs na Delegacia de Defesa da Mulher de Santos, no litoral paulista, e negou crime. Segundo eles, suposta vítima teria até pedido para ser fotografada nua.

O casal suspeito de enganar uma jovem de 21 anos, que afirma ter sido estuprada durante um encontro marcado por um aplicativo de paquera, alegou à polícia que o crime não ocorreu, e que a relação entre eles foi consensual. O caso ocorreu no último dia 26, quando a estudante foi até o imóvel onde os dois suspeitos estavam, em Santos, no litoral paulista.

Em depoimento à Polícia Civil, a jovem que afirma ter sido abusada relatou que a outra mulher, de 20 anos, a convidou, por meio de um aplicativo de mensagens, para ir à sua residência enquanto os pais estavam fora, em viagem, e que ambas estariam sozinhas. No local, conforme a versão apresentada por ela, surgiu o companheiro da moradora, que a teria estuprado após a jovem se recusar a fazer sexo com a outra mulher para ele assistir.

clique na imagem e saiba mais

Em entrevista ao repórter Eduardo Velozo Fuccia, a suspeita afirmou que a jovem foi informada de que o companheiro, um empresário de 32 anos, estava no apartamento, assim que ela chegou ao prédio. Neste domingo (6), o advogado Raphael Meirelles de Paula Alcedo, que representa o casal, reafirmou essa versão. “Ela foi avisada assim que chegou. Ela reagiu naturalmente, disse ‘e daí? Não tem problema’”, afirma Meireles ao explicar que a jovem consentiu a presença do rapaz.

Em entrevista, com a condição de que não seriam identificados, ambos se defenderam. “Nossas vidas foram destruídas. Tudo o que aconteceu foi consentido. Demos um beijo triplo, mas só elas ficaram entre si”, afirma o empresário. “Ela aceitou tudo e se despiu. Ninguém tirou a sua roupa à força. Ela até pediu para ser fotografada nua no sofá para fazer ciúme a um ex-namorado”, completa a namorada dele, que também sofreu vários ferimentos durante o ato sexual.

Por sua vez, o advogado Adriano Neves Lopes, que representa a suposta vítima de estupro, afirma que a alegação do casal é mentirosa. “Quando ela soube que havia essa terceira pessoa [o companheiro da suspeita], imediatamente ela disse que queria ir embora”, atesta o representante.

Apesar da denúncia de estupro, Meireles alega que seu cliente só teria tido relações com a própria companheira. “Não houve conjunção carnal entre os dois [o empresário e a suposta vítima]. No momento da ejaculação, a menina [estudante] estava perto. Inclusive, se tem algum tipo sêmen dele, se tiver na roupa dela, pode ter pegado nela e respingou, porque ela estava sempre junto à menina [suspeita]”, explica, ao ser questionado a respeito das roupas que a denunciante usava no dia do encontro.

De acordo com Meireles, também não houve violência no momento de tirar a roupa, já que, segundo o relato do casal, a estudante teria pedido ao empresário para tirar uma foto dela nua, bebendo uma taça de frisante. “Como é que houve violência em tirar a roupa, se ela estava à vontade, bebendo?”, questiona.

Essa imagem estaria em posse da defesa e será anexada ao inquérito policial. No entanto, a suposta vítima afirma que não sabia sobre a existência da foto. “Ela fala que, quando ele apareceu, ficou sentado no sofá, e teria dito que estava conversando com um funcionário dele. Ela acha que ele tirou foto dela, mas ela estava vestida”, explica Adriano Neves Lopes.

As supostas provas do abuso, como roupas, fotos de hematomas e prints das conversas foram entregues na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Santos na última quarta-feira (2). Além disso, a polícia aguarda o resultado de laudo do Instituto Médico Legal (IML) para comprovar se houve crime.

Suspeita alega ter as mesmas marcas apresentadas pela jovem denunciante — Foto: Arquivo Pessoal

Marcas

Imagens que mostram hematomas nas costas, seios e coxa da suposta vítima foram entregues à polícia e, segundo ela, teriam sido decorrentes de mordidas. A mão dela também teria ficado inchada, por ter tentado se defender do abuso. Meireles afirma que a cliente dele possui as mesmas marcas, nos seios, no ombro e nas costas.

Segundo o defensor do casal, ambas se morderam durante o ato. “A diferença de estrutura física entre eles é muito grande. Inclusive, a menina [suposta vítima] declara praticar muay thai. A estrutura física dela, perto do casal, é muito superior. Tudo indica que ela conseguiria se defender de uma possível violência”, complementa.

A suposta vítima contesta a versão dos suspeitos e afirma que em nenhum momento mordeu a moradora do apartamento. “Todas as marcas da vítima são de defesa”, afirma Lopes.

Caso é investigado pela Delegacia de Defesa da Mulher de Santos, SP — Foto: Maria Regina Freire Martins

Aplicativo

Em nota enviada à Reportagem, o aplicativo de paqueras Tinder, por meio do qual as duas mulheres se conheceram, afirma que baniu o perfil da suspeita da plataforma e que irá cooperar com a investigação da Polícia Civil.

“Estamos muito tristes com essa notícia. Nossos pensamentos estão com a vítima, sua família e amigos. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para cooperar com o cumprimento da lei e auxiliar na investigação”, disse em um trecho da nota.

Investigação

Sobre as investigações, a Polícia Civil afirmou que estão bem adiantadas, mas que não é possível divulgar mais informações, para não prejudicar o andamento do inquérito instaurado. Conforme Lopes, a equipe de investigação foi até o prédio onde ocorreu o encontro e recolheu imagens de câmeras de monitoramento que mostram o horário em que a jovem entrou e saiu do local. O casal prestou depoimento na DDM na quinta-feira (3). (Com informações de Vanessa Ortiz e Juliana Steil/G1 Santos)

Caso é investigado pela Delegacia de Defesa da Mulher de Santos, SP — Foto: Maria Regina Freire Martins