Cientistas da Unicamp criam teste equivalente a PCR com custo que pode ser até 100 vezes menor

Estudo tem como base a modificação genética de leveduras. Projeto está em fase final de criação e expectativa é comercializar em um ano.

Cientistas do Laboratório de Genômica e Bio-Energia (LGE) da Unicamp, em Campinas (SP), propõem desenvolver um novo modelo de teste rápido que usa leveduras para obter o diagnóstico do novo coronavírus. De acordo com os idealizadores do projeto, nomeado de “CoronaYeast”, ele deve custar até 100 vezes mais barato que os convencionais, como RT-PCR e os exames imunológicos. A proposta tem parceria com uma startup criada dentro da instituição.

Apesar de ainda não ser possível precisar qual será exatamente o valor do teste, a expectativa de reduzir consideravelmente o custo em comparação com os exames que já existem no mercado é em razão do uso da levedura. Segundo os pesquisadores, ela precisa apenas de um meio de cultura adequado para ser reproduzida. O projeto, que vai usar a saliva, está em fase final de desenvolvimento e a previsão é que seja comercializado em um ano.

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“Acho que a parte mais desafiadora vai ser realmente os testes clínicos e depois a mobilização para comercializar, porque se trata de um organismo geneticamente modificado, então as questões burocráticas para você comercializar isso são complicadas”, afirmou o engenheiro químico Fellipe de Mello, de 29 anos, um dos envolvidos na proposta.

Como vai funcionar o teste?

A levedura é modificada geneticamente para perceber o estímulo externo do coronavírus. A mudança consiste em aplicar uma enzima que, ao entrar em contato com o vírus da Covid-19, inicia o processo de mudança de cor. “A gente está colocando algumas proteínas na levedura que ela não tem naturalmente”, disse o pesquisador.

De acordo com a bióloga Carla da Silva, também uma das responsáveis pelo projeto, o aparelho funciona como um teste de gravidez. “Como a gente sabe que quem está infectado tem uma concentração alta de vírus, a pessoa pode ou cuspir no teste ou colocar alguma membrana da boca e em seguida ela vai ver o efeito, que é uma bolinha mudando de cor”, explicou a jovem de 25 anos.

A pesquisadora ainda apontou fatores que aumentam o valor dos testes convencionais. No caso do RT-PCR, é preciso de um kit de extração importado para conseguir retirar o material genético e fazer o diagnóstico. Além disso, o objeto de estudo passa por uma máquina, que também possui um preço alto, e o laboratório precisa ter um nível avançado de segurança para evitar contaminação.

Apesar do PCR ser considerado referência (padrão ouro), com poucas chances de erro, Carla informou que é possível ter um falso positivo, uma vez que ele detecta o material genético que pode permanecer no paciente mesmo após a morte das células virais. “Isso não ocorreria com o nosso, porque só os vírus ativos têm capacidade de se ligar ao sistema”, completou.

Já os testes rápidos, encontrados em farmácia, costumam ser caros por conta da produção de antígenos que identificam os anticorpos e de substâncias que mudam de cor. A bióloga ainda ressalta que, apesar do teste com a levedura ter o mesmo conceito, a produção dele é mais barata.

“Os exames imunológicos tem mais chance de falhar porque medem somente os anticorpos. Tem gente que não cria anticorpos, tem gente que tem decaída de anticorpos. Então, é um teste completamente arbitrário. Ele não vê o que está acontecendo no momento exato”, relatou.

Financiamento

Os pesquisadores afirmaram que a ideia da criação do teste surgiu do orientador Gonçalo Pereira, que viu a necessidade de produzir algo relacionado à ciência diante da pandemia da Covid-19. O processo de criação começou em fevereiro e durou cerca de dois meses para se tornar um estudo viável.

A partir da construção do conceito, Carla e Fellipe iniciaram a busca por financiamentos. Eles encontraram um edital da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e se juntaram à empresa-filha da Unicamp “BIOinFOOD” para poder participar do processo seletivo do Programa de Subvenção Econômica à Inovação.

“A gente se juntou com a startup que nasceu no nosso laboratório e que a gente sabia que tinha condição tratar sobre esse assunto com a gente, porque eles já trabalhavam com levedura. A gente entrou na chamada com eles e fomos classificados para conseguir o financiamento de R$ 500 mil”, contou Carla. No entanto, para tirar o projeto do laboratório e começar a comercializá-lo, é preciso mais incentivos financeiros.

“A gente precisa de dinheiro para fazer isso acontecer para não virar mais um projeto da academia que ficou na academia”, pontuou.

Contribuição para a ciência

Os dois pesquisadores comemoraram a oportunidade de contribuir para a ciência brasileira em um momento de tantos desafios para o país por conta do avanço da doença. “No Brasil, principalmente, que a gente está passando por um período de extrema precarização [da pesquisa científica], você vê que quem está trabalhando exaustivamente para tentar resolver uma situação emergencial, que é essa pandemia, são os cientistas”, declarou Fellipe de Melo.

A bióloga também enxerga a profissão como uma maneira de dedicação à sociedade. “Querendo ou não, é por muito amor, porque esse dinheiro [financiamento] é para o projeto, além de poder ajudar as pessoas de uma forma muito mais ampla”, finalizou Carla. (Com informações de Naira Zitei/G1 Campinas e Região)