Fenômeno climático tem alta probabilidade de ocorrer entre julho e setembro e exige atenção para riscos de enchentes e estiagens.
O Brasil pode enfrentar mais um período de eventos climáticos extremos nos próximos meses. De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), há mais de 80% de probabilidade de formação do El Niño entre julho e setembro de 2026. O fenômeno, conhecido por alterar o clima em várias regiões do país, acende o alerta principalmente para o Sul, onde o risco de chuvas intensas e enchentes aumenta de forma significativa.
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico equatorial ficam mais quentes do que o normal. Esse aquecimento interfere diretamente na circulação dos ventos em escala global, mudando o comportamento das chuvas e das temperaturas em diferentes partes do mundo. No Brasil, os efeitos costumam ser bem definidos: enquanto algumas regiões enfrentam excesso de chuva, outras sofrem com a falta dela.
No caso de 2026, a tendência é de impacto mais forte na região Sul. Isso acontece porque o aquecimento do Pacífico favorece a formação de correntes de ar úmido que passam pelo Paraguai e pelo norte da Argentina antes de chegar ao território brasileiro. Ao atingir estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, esse fluxo encontra outros sistemas atmosféricos e cria uma espécie de bloqueio que impede a passagem de frentes frias.
Esse bloqueio faz com que as nuvens carregadas permaneçam por mais tempo sobre a região, aumentando o volume de chuva em curtos períodos. O resultado pode ser o transbordamento de rios, alagamentos e deslizamentos, especialmente em áreas mais vulneráveis.
A climatologista Karina Bruno Lima explica que os modelos climáticos indicam a possibilidade de um El Niño de intensidade moderada a muito forte em 2026. Segundo ela, ainda não é possível afirmar com precisão a força do fenômeno, mas o cenário já exige acompanhamento constante.
“Mesmo com variações entre os modelos, o sinal é de alerta. Quanto mais intenso o El Niño, maior o risco de eventos extremos”, destaca a especialista.
Um dos pontos de maior preocupação está nas chamadas bacias de “resposta rápida”. São regiões onde o nível dos rios sobe de forma acelerada após chuvas intensas. Entre os exemplos estão as bacias do Guaíba, no Rio Grande do Sul, e do Itajaí, em Santa Catarina. Nessas áreas, poucas horas de chuva forte podem ser suficientes para provocar enchentes significativas.
Por isso, o monitoramento dessas bacias é considerado essencial. A elevação rápida do nível da água pode pegar moradores de surpresa, principalmente em cidades com histórico de alagamentos. Sistemas de alerta e planejamento urbano adequado fazem diferença para reduzir os danos.
Enquanto o Sul pode enfrentar excesso de chuva, o cenário é oposto no Norte e Nordeste. O El Niño tende a reduzir a formação de nuvens nessas regiões, já que o fluxo de ar chega mais seco. Com isso, as chuvas ficam escassas e a seca pode se intensificar, afetando o abastecimento de água, a agricultura e a produção de alimentos.
Esse contraste entre regiões é uma das marcas do fenômeno e reforça a necessidade de estratégias diferentes para cada parte do país. No Nordeste, por exemplo, a preocupação maior costuma ser com reservatórios e segurança hídrica. Já no Sul, o foco está na prevenção de desastres causados pelo excesso de água.
Outro ponto destacado por especialistas é que os impactos do El Niño não dependem apenas do clima. Fatores locais, como infraestrutura, ocupação irregular do solo e falta de planejamento urbano, influenciam diretamente na gravidade das consequências. Cidades com drenagem inadequada ou construções em áreas de risco tendem a sofrer mais.
Nos últimos anos, episódios de chuvas intensas no Sul do Brasil já deixaram um histórico de prejuízos, com famílias desabrigadas e danos econômicos relevantes. Esse histórico aumenta a preocupação para 2026, caso o fenômeno se confirme com maior intensidade.
Diante desse cenário, órgãos de monitoramento, prefeituras e a população precisam estar atentos. A preparação antecipada pode reduzir riscos e salvar vidas, principalmente em regiões mais vulneráveis.
O avanço das previsões climáticas permite hoje uma antecipação maior desses eventos, mas ainda há limitações. Por isso, o acompanhamento contínuo das atualizações feitas por instituições como o Cemaden é fundamental nos próximos meses.



