Pesquisadores que acompanharam de perto o rompimento de barragem em Brumadinho debatem ética, geofísica e responsabilidades.

A Universidade de São Paulo (USP) acompanhou de perto a tragédia de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em razão do rompimento da barragem 1 do complexo Córrego do Feijão, da mineradora Vale.

Especialistas nas áreas de meio ambiente, engenharia, direito e saúde discutiram, ao longo do período, o desastre ambiental e humano, de magnitude sem precedentes, ocorrido no mês de janeiro e que levanta a perspectiva de uma tragédia anunciada, além de outros pontos importantes que envolvem, sobretudo, as questões de segurança e reformulação de métodos de construção de barragens.

Desastres

Em pouco menos de três anos, uma tragédia semelhante aconteceu em Mariana, também em Minas Gerais, igualmente com participação da Vale. “Esses desastres ambientais põem na ordem do dia, com alta prioridade, o problema do licenciamento ambiental, o que significa uma séria inversão de prioridades do Governo Federal”, afirma José Goldemberg, professor emérito da USP, ex-ministro do Meio Ambiente e ex-secretário do Meio Ambiente de São Paulo.

Para ele, não é possível, como querem alguns, resolver os problemas da pobreza no País mantendo a natureza intocada, mas pode-se fazer um licenciamento ambiental mais rigoroso e ágil, que proteja a população sem impedir o desenvolvimento.

Ajuda direta

Uma equipe da USP foi a Minas Gerais para ajudar nas buscas por vítimas do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. Eles testaram uma metodologia de geofísica aplicada para otimizar as ações de resgate.

O trabalho é liderado por Jorge Porsani, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. A equipe foi para Brumadinho depois de receber uma mensagem de um médico que atuava nas buscas. O método empregado foi o GPR, sigla em inglês para Radar de Penetração no Solo.

O método usa ondas de rádio em frequências muito altas para obter imagens de alta resolução retratando o perfil do subsolo, permitindo a localização de estruturas, feições geológicas rasas e objetos enterrados. O GPR é muito usado na exploração de recursos naturais, na localização de tubulações subterrâneas e em estudos arqueológicos, mas também pode ter aplicações humanitárias.

Tecnologia

A ideia de empregar o GPR em Brumadinho ocorreu logo após a tragédia, mas não havia dados sobre a eficácia da metodologia nas condições do local. “O GPR teria grande chance de não funcionar bem sob as condições de lama misturada ao minério de ferro”, explica o professor.

Mesmo assim, Porsani viu que existia uma chance mínima, devido às incertezas, e se dispôs a realizar o trabalho. “Não podemos simplesmente dizer que a metodologia não irá funcionar com base em conceitos teóricos sem antes fazermos um teste prático em campo”, salienta.

Mesmo com as incertezas, e frente ao cenário trágico, o método aplicado em Brumadinho obteve resultados surpreendentes. “O GPR funcionou relativamente bem porque a lama com minério de ferro nesse processo de mistura, devido ao rompimento da barragem, ficou porosa”, ressalta o professor do Departamento de Geofísica do IAG.

“Os poros ficaram preenchidos com ar, proporcionando a penetração e a reflexão das ondas eletromagnéticas do GPR”, acrescenta.

Reflexão

Mas a quem interessa, de fato, este quesito importante? A tragédia em Brumadinho nos traz mais uma vez a reflexão sobre qual é o significado da tão propalada ‘sustentabilidade’ corporativa.

“Em uma visão mais ampla, a sustentabilidade está ancorada em três pilares, lucro, pessoas, planeta (3Ps, em inglês – profit, people, planet). Uma combinação mais equilibrada destes três pilares pode produzir empresas que se sustentam por um longo tempo, ou seja, que tenham lucro, reputação, credibilidade, crédito”, conta Solange Garcia, professora de Contabilidade e Responsabilidade Social Corporativa da Faculdade de Economia e Administração de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP.

Entretanto, na vida real, desde o dia da tragédia, as pessoas têm expressado com indignação o paradoxo que existe entre os três pilares teóricos da sustentabilidade, reconhecendo a importância da atividade econômica para gerar empregos, renda para as famílias, receitas para o município, lucros para os seus donos, mas não reconhecendo, em hipótese alguma, que ela possa gerar vidas humanas perdidas e devastação ambiental.

“Este é o senso comum quando nos defrontamos com a dramática realidade de tantos mortos e desaparecidos e é, também, a representação teórica da interconectividade que existe entre impactos ambientais, sociais, humanos, econômicos e financeiros”, explica Fabiano Guasti Lima, professor de Finanças da FEA-RP da USP.

Responsabilidade

Para o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP Renato Janine Ribeiro, não é apenas uma falha, pois não se trata de fatalidade, uma vez que a fatalidade é aquilo que não se pode prever, ao contrário da tragédia em Minas Gerais.

“Para quem pensa em termos de ética empresarial, que é algo absolutamente essencial em um mundo em que quase toda a produção se faz por empresas, o terrível é perceber o descaso de alguns empresários por princípios básicos que deveriam ter sido tomados”, diz.

Janine ressalta que é preciso entender que a ética envolve responsabilidade e que não é apenas para ser ostentada de vez em quando. “Ética está na prática e a prática da ética é, por exemplo, você, sabendo que está lidando com algo que envolve riscos, evitar que esses riscos ocorram e tomar as medidas necessárias para isso”, conclui.