Estudo da UFSCar aponta as principais causas para desperdício de alimentos no Brasil

Das 140 milhões de toneladas de alimentos produzidas por ano no país, 26 milhões são jogados no lixo. Falta de comunicação entre produtores e supermercados, manuseio incorreto e padrões rígidos de aparência de alimentos estão entre causas.

Um estudo realizado pela UFSCar – Universidade Federal de São Carlos (SP) apontou as principais causas de desperdício de alimentos no Brasil. Das 140 milhões de toneladas de alimentos produzidas por ano no país, 26 milhões são jogados no lixo, segundo a Embrapa.

A pesquisa apontou desperdícios consideráveis em várias etapas do processo de alimentos desde a produção, venda e até o consumo final. (veja abaixo os principais pontos).

Segundo a doutora em engenharia de produção Camila Moraes, autora da pesquisa, um dos fatores que impulsiona o desperdício é de que as pessoas quererem um alimento sempre em perfeito estado.

“Na produção rural, a gente tem desperdício de alimentos em relação a pragas, as chuvas, tempestades que acabam estragando a colheita e você tem um desperdício significativo. No transporte até a comercialização também, dentro dos supermercados é elevado. Na casa dos consumidores ou por não aproveitar os alimentos integralmente ou por esquecer na geladeira”, contou a pesquisadora.

Das 140 milhões de toneladas de alimentos produzidas por ano no país, 26 milhões são jogados no lixo, segundo a Embrapa — Foto: Reprodução EPTV

Avaliação da produção e venda

O estudo da UFSCar mapeou os desperdícios dos alimentos em cada etapa e quais eram as causas para isso. No estado de São Paulo, os pesquisadores avaliaram durante quatro anos a produção de alimentos na capital, em Campinas e em Santa Bárbara D’Oeste.

Também identificaram as perdas no varejo em supermercados de São Paulo, Campinas, Americana e Nova Odessa.

“É Importante a gente pensar quando a gente discute sustentabilidade, a gente pensa na cadeia. Então, o nosso trabalho vai muito nessa direção de olhar o que a gente pode mudar quando o produto sai do produtor e chega no varejo e do varejo pra casa do consumidor”, disse a professora do Departamento de Engenharia de Produção da UFSCar Andrea Lago da Silva.

Veja as principais causas do desperdício apontadas pela pesquisa:

  • Falta de comunicação entre produtores e supermercados: o estudo avaliou atividades de distribuição, armazenagem, exibição, manuseio e descarte de frutas, legumes e verduras em lojas e centros de distribuição. De acordo com a pesquisadora, os supermercados não dizem para os fornecedores quanto eles esperam vender ou mesmo quanto eles costumam vender daquele produto. E essa falta de informação e medição gera problemas gigantescos porque há muita dificuldade em prever a demanda e planejar a produção. Os fornecedores, em geral, acabam se baseando apenas no que venderam de cada alimento, sem saber, de fato, quanto está sendo comprado pelo cliente final. Dentro dos supermercados, uma das situações identificadas é a divergência de dados.
  • Manuseio incorreto dos alimentos: muitas pessoas que trabalham com o manuseio dos alimentos não o fazem corretamente quando vão limpar ou organizar as gôndolas. Esses profissionais precisam de treinamento. Muitos não sabem, mas determinadas frutas e legumes quando ficam próximos demais têm seu processo de maturação acelerado. Faltam embalagens e transporte adequados, e muitas vezes refrigeração.
  • Exigências dos supermercados e dos clientes: os padrões rígidos de aparência e forma de frutas, legumes e verduras impostos pelos supermercados também influenciam diretamente no desperdício dos fornecedores. De acordo com a pesquisa, a própria cultura do consumidor brasileiro, como apertar os alimentos na hora da compra e exigir uma estética perfeita, também contribui para a alta quantidade de alimentos que vão para o lixo.

 

Embora os alimentos sejam desperdiçados em todos os estágios da cadeia, suas causas não ocorrem necessariamente no mesmo estágio que o próprio desperdício. Ainda de acordo com a pesquisa, quando o desperdício aparece nos elos finais, isso indica que, provavelmente, todos os processos anteriores também tiveram perdas. Do total de alimentos desperdiçados todos os dias no país, 40%, ocorre na distribuição após o processamento, sendo que o varejo é responsável por 12% desse total.

Desperdício x fome

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) na alimentação e agricultura de cada dez alimentos produzidos no mundo, e disponíveis para consumo, dois vão para o lixo.

No Brasil, a fome aumentou voltou a crescer por causa do aumento dos preços dos produtos na pandemia. Quase 117 milhões de pessoas têm algum tipo de insegurança alimentar, mais da metade da população. Do total, quase 20 milhões passam fome.

Segundo ONU, na alimentação e agricultura de cada dez alimentos produzidos no mundo dois vão para o lixo. — Foto: Reprodução/Facebook/Foodsharing

Soluções

Entre as propostas para solucionar o problema, a pesquisa indica:

  • troca de informações com fornecedores, previsão de demanda mais precisa, treinamentos e o acesso à tecnologia podem ajudar a criar ações que diminuam o desperdício. Incentivos à redução do desperdício nos restaurantes e lares também são uma ação relevante. O baixo estímulo à cooperação entre os elos da cadeia e empresas é uma das principais barreiras para adoção das práticas de redução do desperdício, principalmente quando dependem da ação em conjunto. O início da solução desse problema está nos supermercados, que são o centro do sistema alimentar moderno e têm o poder de ensinar as pessoas a pensarem diferente, atingindo tanto o público consumidor quanto os fornecedores.
  • O combate também deve passar pelo treinamento de funcionários do varejo para a redução do desperdício nas atividades ligadas a frutas, legumes e verduras, que contam com nutricionistas e outros profissionais que usam alimentos que já estão machucados, porém continuam saudáveis, para criar produtos, como sucos e compotas na própria loja, desperdiçam bem menos. O varejo brasileiro (em especial, as redes de grande e médio portes) dispõe de acesso a pesquisas, metodologias, tecnologias e bons exemplos de trabalhos desenvolvidos no que diz respeito à redução do desperdício.
  • Atenção do público sobre a dimensão ética do desperdício de alimentos pressiona cada vez mais as empresas a mostrarem seus esforços de redução, sob uma perspectiva de responsabilidade social. As descobertas do estudo podem ajudar os gerentes a identificarem e mapearem as causas do desperdício de alimentos em suas operações, bem como analisar quais as melhores práticas de redução de acordo com as particularidades de cada organização. Os objetivos de desenvolvimento sustentável, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), ressaltam a urgência de padrões de produção e consumo sustentáveis e a necessidade de reduzir pela metade o desperdício de alimentos no nível de varejo e consumidor, além de reduzir as perdas ao longo da cadeia de produção e fornecimento.
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