Ex-morador de rua supera drogas e vira vendedor ambulante: ‘comi coisa do lixo’

Joseilton Azevedo de Oliveira, de 30 anos, viveu por dois anos e meio nas ruas da cidade, teve que comer até massa de pizza com bigato e agora vende salgados e bebidas no Terminal Rodoviário.

Após morar dois anos e meio na rua, Joseilton Azevedo de Oliveira, que ganhou o apelido de “Sussa” por causa do seu jeito sossegado, tem orgulho de ter superado o vício das drogas e, há quase dois anos, ter se tornado um vendedor ambulante em São Carlos (SP).

Sussa nasceu em Malacacheta (MG), mas mora há 10 anos em São Carlos. Chegou na cidade e começou a trabalhar como pedreiro, mas recaiu nas drogas e nas bebidas. Ele acredita que tudo o que passou na rua foi aprendizado e precisava ser vivido para conquistar o que tem agora.

O ex-morador de rua lembra que muitas pessoas o discriminavam por, aos 30 anos, estar pedindo dinheiro e o mandavam trabalhar por conta da força e energia. “Quando eu morava na rua, entreguei currículo, mas não encontrava trabalho, então Deus preparou isso aqui para mim. Dei a volta por cima e hoje estou bem.”

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Joseilton Azevedo de Oliveira, conhecido como Sussa, superou as drogas e virou vendedor ambulante em São Carlos — Foto: Arquivo Pessoal

Dias críticos

Ele contou que raramente os moradores de rua passam fome, mas que há dias críticos como no domingo, por exemplo, que quase ninguém faz doação. “O pessoal pega coisa do lixo do supermercado quando abre às 6h. Passei fome três vezes morando na rua, sempre tive cara de pau de pedir marmita, mas muitas pessoas negavam.”

“Várias vezes já comi coisa do lixo, chegava perto de locais onde havia lanchonete com resto de lanche, massa de pizza. Às vezes olhava para o lixo e estava cheio de bigato, mas a fome falava mais alto. ”

Ex-morador de rua superou vício das drogas e virou vendedor ambulante em São Carlos — Foto: Arquivo Pessoal

Superação

Sussa decidiu sair da rua após viajar para o Paraná e vender bala de goma no semáforo. “Teve um dia que fiz R$ 237 e fiquei empolgando, voltei para São Carlos, fui para a casa do meu irmão, continuei vendendo gominhas, balas e chicletes, aí surgiu a ideia de vender água, suco e salgado e está indo bem.”

Vendendo cerca de 70 salgados por dia, além dos outros itens da sua barraca improvisada que montou no Terminal Rodoviária, ele alugou uma casa por R$ 340 ao mês. “Compro os salgados a R$ 2 e vendo a R$ 3. Precinho barato, simples, para que todo mundo consiga comprar. Penso nas pessoas que levantam cedo, saem de casa para trabalhar e estão no mesmo ritmo que eu.”

O dinheiro das vendas permitiu que ele fosse para Minas Gerais encontrar a mãe que não via há seis anos. “Também consegui comprar um freezer para colocar coisas para gelar e consegui comprar uma máquina de lavar roupas. Sabendo usar o dinheiro dá tudo certo.”

O vendedor ambulante comemora a superação e atualmente divide a casa onde mora com outro ex-morador de rua, o Pablo Gustavo Tondate Assis que ajuda na venda dos salgados e bebidas.

“Vestimos as mesmas roupas, ele morava na rua e veio trabalhar e morar comigo. Tinha uns sete meses que não via a mãe dele e foi lá ver, conseguiu depositar dinheiro para ela, [conseguiu isso] me ajudando aqui.”

Ex-morador de rua virou vendedor ambulante e juntou dinheiro para visitar a mãe que não via há seis anos em Minas Gerais — Foto: Redes Sociais

Generosidade

O vendedor ambulante espera ajudar mais pessoas no futuro, principalmente moradores de rua. “Quero ter um estabelecimento para dar emprego para as pessoas, não para eu ganhar muito, mas para ajudar as pessoas e também arrumar uma chácara e tirar esses moradores de rua [e coloca-los lá] para eles plantarem, colherem e venderem a mercadoria.”

Sussa é conhecido pela alegria e por orientar os passageiros do Terminal Rodoviário sobre os horários e destino dos ônibus. “Faço isso porque muitas pessoas mexem no celular de cabeça baixa e quando o ônibus vem, eu anuncio. Tem alguns senhores que ao invés de perguntar na porta, me perguntam. Outros pedem para eu avisar quando chegar e me perguntam sobre o horário.”

A mudança de vida possibilitou que ele fizesse amizade com muitas pessoas e conquistasse o respeito e admiração da população que frequenta o terminal. “Graças a Deus tenho o maior respeito porque também dou respeito, brinco com todo mundo, sei ser sério e não misturar as coisas. Quem está com Deus sempre está na paz e quem está na paz está alegre e contente.”

Como já viveu a experiência das dificuldades de quem mora na rua, ele recomenda que as pessoas pensem no próximo e levem as sobras de comida para os moradores de rua. “Direto eu compro pão e uma coca para eles, como junto com eles, não carrego preconceito e defendo os moradores de rua. Muitas pessoas estão [na rua] não porque querem, mas pela situação difícil”, contou.

Sussa não se arrepende do que passou e diz que seu maior aprendizado foi respeitar e ter mais paciência com o próximo. “Tudo que acontece é porque a gente procura e certas coisas que vem por ensinamento para no dia de amanhã você entender. Todos os obstáculos que aparecem, contas, problemas de família, se você estiver com fé, a meu ver, você consegue vencer.” (Com infomações de  Brenda Bento*, sob supervisão de Fabiana Assis, editora do G1 São Carlos e Araraquara)

Vendedor ambulante ajudou Pablo Gustavo Tondate Assis a sair das ruas em São Carlos — Foto: Redes Sociais