Família que dividiu quarto de hospital com criança torturada em barril cita amizade após resgate: ‘Comunicativo e educado’

Caso ocorreu em Campinas (SP) há uma semana e chocou o Brasil. Pai de paciente deu roupa ao menino no hospital. Jardineiro que encontrou o garoto de 11 anos contou detalhes do resgate.

O menino de 11 anos que foi torturado enquanto ficou acorrentado a um barril na periferia de Campinas (SP) encontrou acolhimento e a amizade de uma criança de 5 anos enquanto se recuperava num quarto de hospital.

Pai e o filho, que foi intubado após problemas respiratórios, dividiram roupa, brinquedos e atenção com o garoto vítima da violência. “Foi uma cena comovente, né. A gente nunca imaginava que um menino que tava passando na televisão ia no mesmo quarto que meu filho, e os dois iam fazer amizade.”, diz o pai de Luka, Renato Siqueira Santos.

O menino resgatado não tinha nem roupa para ficar no leito hospitalar. A ajuda veio dos novos amigos. “Assim que ele chegou lá no leito do hospital, ele tava sem camiseta, sim. Aí, meu filho tinha uma camiseta vermelha dentro da bolsa. Eu aproveitei e dei pra ele… Ele até me agradeceu, ‘Brigado, tio!’ É um menino comunicativo e educado… Nada a ver o que falaram dele”.

clique na imagem e saiba mais

As duas crianças viram desenhos animados na televisão do hospital, brincaram e quiseram trocar presentes na despedida emocionada. “Ele foi na cama, pegou esse brinquedo e entregou pro meu filho. Falou: ‘Toma, amiguinho. Isso é pra você se lembrar de mim’. Aí, automaticamente, meu filho pegou o Hulk, que ele tinha de plástico verde, e entregou pra ele também. ‘Toma, amiguinho, pra você também se lembrar de mim’. Os dois se abraçaram. Foi muito comovente. Todo mundo do hospital aplaudiu.”, lembra o pai de Luka.

O menino de 11 anos foi resgatado no dia 30 de janeiro após sofrer tortura em uma casa no Jardim Itatiaia. Tinha mãos e pés acorrentados, estava debilitado e com sinais de desnutrição.

Contou que se alimentava de cascas de frutas e fubá cru. Tinha sede e fome quando pediu ajuda. “Quando a gente vê aquela situação ao vivo, aquela situação do menino, o baque é muito grande, porque não sei como um ser humano tem capacidade de fazer isso com um incapaz… Muita crueldade.”, diz o pai do Luka.

Menino de 11 anos resgatado pela polícia em Campinas após sofrer tortura acorrentado a um barril — Foto: Reprodução/EPTV

‘Tinha que apanhar calado’

Jardineiro e morador de uma viela próxima da casa onde residia a família do menino encontrado acorrentado dentro do barril, Ivanei Queirós da Silva foi quem chamou a polícia após se deparar com o garoto pedindo ajuda.

Ele lembrou que as agressões eram recorrentes, mas não imaginou que a situação se agravaria a esse ponto. “Apanha praticamente todos os dias. Tanto a mãe como o pai falavam pra ele não chorar, pra não gritar. Então, ele tinha que apanhar calado. Sofrer ali calado“.

Silva conseguiu pelo muro chegar ao garoto, percebeu forte cheiro de urina e fezes, disse que chamaria ajuda, registrou as imagens com um celular. Ele pediu que a Polícia Militar enviasse o máximo de viaturas possível, urgentemente, porque havia uma criança pelada acorrentada a um barril. “Falei pra eles mandar o máximo de viatura possível, que não seria nem urgente, seria mais que urgência, porque tinha uma criança acorrentada, dentro do barril, pelada”.

Após o resgate e os dias hospitalizado para passar por exames e tratar a desnutrição, o menino de 11 anos recebeu alta e foi encaminhado para uma instituição de acolhimento em Campinas, uma medida excepcional prevista pelo Estatuto da Criança e Adolescente (ECA).

Por todo o país – e até fora do Brasil – houve uma mobilização de ajuda ao garoto. Centenas de roupas e brinquedos foram doados. “Um alívio de saber que ele tá bem. Que ele vai passar a ter uma vida decente, que toda criança merece.”, diz o jardineiro.

O pai, a madrasta do menino e a filha dela, de 22 anos – que estava em casa vendo televisão quando a polícia chegou – foram presos preventivamente por tortura e omissão. O caso também é acompanhado pelo Ministério Público. (Com informações de Paulo Gonçalves, Fantástico e EPTV).

ÁGIL DPVAT