Grupo arrecada mais de 11 mil caixas de leite para produzir mantas térmicas a moradores de rua em SP

Projeto de Santos, no litoral paulista, serviu de inspiração para outros grupos no Brasil. Ação arrecadou mais de 11 mil caixas em 2020.

Um grupo de voluntários de Santos, no litoral de São Paulo, decidiu aproveitar a quarentena imposta pelo novo coronavírus para iniciar uma ação que está ajudando dezenas de pessoas em situação de rua a enfrentar o frio no inverno. O trabalho consiste em arrecadar caixas de leite, transformá-las em mantas térmicas e, depois, doá-las.

A ideia surgiu a partir de um trabalho de pesquisa, que levou o engenheiro João Adelino Duarte Vieira, de 51 anos, a conhecer a funcionalidade da caixa de leite como isolante térmico. Isso porque as caixas contam com seis camadas de materiais, sendo quatro de polietileno (plástico), uma de alumínio e uma de papel cartão. A junção dessas camadas permite refletir o calor e manter as pessoas aquecidas.

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“Quando começamos a fazer o trabalho de ação na rua, nos deparamos com as necessidades das pessoas quem passam muito frio, e percebemos que as mantas térmicas poderiam ajudá-las. Começamos a entender o processo, conseguir as máquinas necessárias, cortar as caixas e fazer as costuras”, explica Vieira, que faz parte do grupo Amigos do São Vicente de Paulo/Nação do Bem.

A advogada Fabiana Paiva de Ribeira, de 43 anos, é voluntária do grupo e conta que, no começo do ano, foi elaborado um projeto totalmente diferente, que teve de ser adiado devido à pandemia do novo coronavírus. O ‘Café do Bem’ previa a entrega de lanches e de um ‘ouvido amigo’ para conversar e desabafar. Mas, o modelo se tornou perigoso, e o grupo decidiu mudar de estratégia.

“Com a pandemia do novo coronavírus, essa ideia se tornou complicada, por causa do contato com as pessoas. Então, surgiu durante a quarentena o projeto ‘Ações na Rua’, como uma ação emergencial, com o objetivo de distribuir lanches, agasalhos, cobertores e mantas térmicas a pessoas em situação de rua”, explica a voluntária.

O Nação do Bem já conseguiu arrecadar mais de 11 mil caixas de leite na Baixada Santista e produzir cerca de 500 mantas térmicas. A primeira foi doada a um morador de rua que dorme próximo à sede do grupo, no bairro Macuco, com o objetivo de ajudá-lo e ainda obter um feedback sobre o funcionamento da manta.

De acordo com Vieira, o beneficiado o procurou dois dias depois para dizer o que achou da novidade. “Fui explicando para ele como usava, que a parte do alumínio tinha que ficar para cima. Pedi para usar à noite e depois me procurar. Ele disse que sempre dependia de um agasalho para dormir em cima do papelão, mas que, com a manta, não precisa mais de cobertor”.

Costureiras ficam responsáveis por passar as caixas nas máquinas — Foto: Divulgação/Denise Dominguez

Produção

Para fazer uma manta térmica com as dimensões de 1,70m x 65cm, são necessárias 18 caixas de leite em boas condições. Se estiverem cortadas de maneira errada ou faltando alguns pedaços, podem ser usadas até 27 caixas em cada equipamento. Dessa forma, o material restante pode ser usado para costurar, no máximo, 170 mantas.

“Não esperávamos uma repercussão tão grande quando começamos o projeto. As pessoas estão interessadas em conhecer, e isso ajuda na divulgação. Até o último dia 10 [de julho], já havíamos produzido 77 mantas e distribuído parte delas a entidades assistenciais da Baixada Santista, que repassam [as doações] para os moradores de rua”.

O projeto chamou tanta atenção que está servindo de inspiração para grupos de outros lugares do Brasil. Vieira conta que já foi contatado por pessoas de Varginha (MG), São Paulo e Santa Catarina, que desejavam saber como as mantas eram feitas para poderem reproduzir. “A sementinha está sendo distribuída”, garante o engenheiro.

Para a edição de 2020, o grupo deixou de arrecadar caixas de leite e têm se dedicado a produzir as mantas e ajudar os projetos de outras regiões. Em caso de dúvidas, o Nação do Bem disponibilizou um novo telefone de contato, através do número (13) 99670-4798.

Grupo pede para que doadores entreguem as caixas de leite já limpas — Foto: Reprodução

Processo

As caixas de leite percorrem um longo caminho da casa dos doares até os moradores de rua. Para isso, o grupo conta com mais de 20 voluntários, que são responsáveis pela retirada do material (10 pessoas), higienização, triagem e abertura das caixas (5 pessoas), corte e aparas (5 pessoas) e costura, que agora aumentou de uma para três, o que agiliza a produção.

“Antes, a costureira estava fazendo cerca de dez mantas em cinco dias. Como ela é voluntária, não consegue trabalhar integralmente. A costura em si não demora, o que demora é todo o processo de coleta, limpeza e corte. Por conta da pandemia, todos os voluntários estão fazendo suas partes em casa, o que acaba atrasando ainda mais”, explica Vieira.

Agora, com as novas voluntárias, o objetivo é manter a produção acelerada até o ano que vem, para que as mantas estejam prontas para serem distribuídas no próximo inverno. Para Vieira, esse é um trabalho muito importante, que faz com que os moradores de rua se sintam queridos. “Tenho a sensação de ser útil na vida de uma pessoa. Para que ela tenha esperança, precisa se sentir bem. Queremos despertar a vontade deles mudarem de vida”.

Para Fabiana, fazer parte do projeto causa uma sensação de gratidão. “Saber que uma coisa tão simples como uma caixa de leite, que iria para o lixo, pode ser usada em benefício de alguém é muito bom. Quando fazemos um trabalho assim, imaginamos que vamos doar, ajudar, mas a sensação no fim da entrega é de que recebemos muito mais do que doamos. O sentimento de satisfação compensa todo o trabalho duro”.