Laudo do IML não aponta causa da morte de grávida de 7 meses que aplicou ‘kit aborto’ no interior de SP

Namorado da vítima também foi ouvido e disse à Polícia Civil, em Votorantim (SP), que os dois compraram remédios pela internet; ele chegou a ser preso. Defesa diz que jovem colabora com a investigação.

O laudo do Instituto Médico Legal (IML) não conseguiu determinar a causa da morte da jovem que não resistiu após tentar abortar aos 7 meses de gravidez, em Votorantim (SP), no final de outubro (leia mais abaixo).

Ana Carolina Pereira Pinto, de 20 anos, e o namorado, Kevin Willians, de 22, haviam comprado um chamado “kit aborto” pela internet por R$ 1,4 mil. Horas depois de ter aplicado injeções na barriga, a jovem passou a reclamar de dor.

Segundo apurado pela nossa reportagem, o IML apontou causa indeterminada para a morte, e o laudo complementar toxicológico irá identificar as substâncias no corpo de Ana Carolina e as dosagens aplicadas. Juntos, os exames podem esclarecer a causa do óbito.

Kevin Willians foi preso em flagrante e depois liberado – o jovem está sendo investigado. A defesa disse que ele está colaborando com a investigação e que irá se pronunciar sobre o caso, o que ainda não havia ocorrido até a última atualização desta reportagem.

A polícia tenta identificar quem vendeu do “kit aborto”. De acordo com o delegado José Antônio Proença Martins de Melo, a pessoa pode ser responsabilizada por crime de aborto com o consentimento da gestante.

Ana Carolina morava com os pais, que não sabiam da gestação. Ana Carolina e o namorado descobriram a gravidez um mês antes do aborto.

‘Kit aborto’

Segundo o relato do pai da jovem à polícia, a família estava em casa quando decidiu pedir um lanche. A filha aparentava estar bem e disse que estava uma prova on-line da faculdade no quarto – a porta estava fechada. A mulher não chegou a jantar.

Por volta de 4h20, os pais acordaram para levar a filha para pegar o ônibus que a levaria ao trabalho. Nesse momento, notaram que a jovem não tinha acordado. Ela foi encontrada caída no quarto.

O Samu foi chamado, mas a mulher já estava sem vida. Em seguida, o namorado foi chamado e, ao chegar ao local, afirmou que ele e a jovem tinham feito um procedimento, mas não revelou, até então, que seria uma tentativa de aborto.

À polícia, o pai confirmou que não sabia da gravidez e disse imaginou que a vítima tinha apenas engordado. Perguntado sobre o comportamento da jovem, citou que ela não aparentava sentir dores.

Investigação

“A substância ainda é desconhecida e, com o resultado do aborto, o vendedor pode ser responsabilizado pelo mesmo crime de aborto com o consentimento da gestante. No caso, foi procurada a clandestinidade e havia o medo, porque o caso viria à tona”, afirmou delegado Martins de Melo.

Não se sabe ainda exatamente como o casal comprou o produto. Ainda segundo a polícia, podem existir outros crimes contra o fornecedor, se for constatado medicamento estrangeiro e não autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Interrogatório

O namorado detalhou o ocorrido em um interrogatório à Polícia Civil. Segundo o registro, o casal não estava brigado e mantinha um relacionamento havia cerca de dois anos. Um mês atrás, Ana Carolina relatou que estava com sintomas de gravidez. Os dois decidiram fazer um teste de farmácia, que confirmou a gestação.

Na época, Ana marcou uma ultrassonografia. Foi constatada a gravidez de 27 semanas – o bebê era um menino. Durante uma conversa com o namorado, a jovem citou receio de prosseguir com a gestação e como contaria à família sobre o filho.

Ambos chegaram ao consenso de não seguir com a gestação, ainda com base no relato, por conta da idade e “pouca e experiência”.

Segundo o namorado afirmou, a vítima teria feito pesquisas sobre métodos abortivos. O rapaz relatou que chegou a falar sobre risco, mas que ambos concordaram com a compra da substância abortiva, que foi realizada pela vítima, no valor de R$ 1,4 mil, via PIX.

A encomenda foi entregue na casa de Kevin. Os dois, então, combinaram de achar um local para aplicarem o produto. O lugar escolhido foi uma pousada no bairro Campolim, na Zona Sul de Sorocaba.

O investigado detalhou que a vítima pegou as injeções e disse que tinha medo de aplicar. Em seguida, pediu ajuda ao namorado. Ainda de acordo com o relato, foram quatro aplicações na barriga. A “técnica” sobre como injetar o medicamento, segundo o rapaz, foi explicada pela pessoa que vendeu o produto à vítima.

‘Minha barriga parece que vai explodir’

No dia seguinte, os dois foram trabalhar e, perto do fim do turno, a jovem contou que sentia dores de cabeça e cólicas. Ainda segundo o registro, os sintomas pioraram com o passar das horas, e surgiram dores no estômago e vômitos.

Em determinando momento, Ana teria dito ao namorado: “minha barriga parece que vai explodir”.

Segundo o relato do namorado à polícia, a vítima o questionou sobre pedir ajuda aos seus pais, e ele disse para manter a calma, por achar que a situação não era grave. Assim, orientou a namorada para não contar sobre o caso.

De acordo com o documento, a vítima insistiu em falar sobre o problema com a família, e o namorado continuou pedindo para que não o fizesse. Os dois estavam preocupados com o dia seguinte de trabalho.

Como eles entenderam que ela estava entrando em trabalho de parto, Kevin sugeriu que namorada entrasse em contato com a pessoa que vendeu o kit, em vez de ir ao hospital. Durante a conversa, sentindo dores, a vítima lhe disse que a bolsa havia estourado, mas que não teve resposta da pessoa que tinha vendido o material.

Questionado sobre o momento que a vítima manifestou que queria falar com os pais, Kevin disse que estava nervoso. Ao fim da noite, conforme ele, os dois conversaram rapidamente, mas a vítima disse que não poderia falar e que tentava dormir.

Por volta das 4h do dia da morte de Ana, o namorado dela recebeu uma ligação da sogra sobre a morte. O rapaz foi preso em flagrante por crime contra a vida – no caso, provocar aborto com o consentimento da gestante. (Com informações de Carlos Henrique Dias, g1 Sorocaba e Jundiaí).

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