Pesquisas da Unesp descobrem substâncias capazes de matar as larvas do Aedes aegypti

Um dos estudos feitos no Instituto de Química de Araraquara identificou nas plantas um composto mortal e o outro usou biologia e computação para descobrir uma forma de impedir o desenvolvimento das larvas.

Duas pesquisas realizadas por cientistas do Instituto de Química (IQ) da Unesp, em Araraquara (SP) podem ser grandes aliadas no combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus da dengue.

Uma delas identificou nas plantas uma substância para matar as larvas, a outra usou biologia e computação para descobrir uma forma de impedir o desenvolvimento das larvas.

A dengue é um problema crônico no Brasil e de tempos em tempo assolam várias regiões. Em Araraquara, duas epidemias da doença abalaram a população em 2015 e 2019, essa última a pior da história da cidade. A doença é preocupante pelos seus efeitos e também porque os métodos de controle do mosquito Aedes aegypti vem perdendo força ao longo dos anos.

Isso ocorre devido ao aumento da resistência do inseto aos inseticidas levaram os cientistas a buscar novas estratégias para combater o mosquito que também transmissor dos vírus da zika e da chikungunya. Por isso, os resultados obtidos pelos pesquisadores da Unesp se mostram animadores para o controle da doença.

Pesquisas da Unesp descobrem substâncias capazes de eliminar as larvas do mosquito da dengue — Foto: Reprodução EPTV

Combate pelas plantas

Uma das pesquisas em andamento encontrou nas plantas da família Malpighiaceae, amplamente distribuídas no Brasil, um composto capaz de matar as larvas do mosquito.

Algumas espécies dessa família de plantas são usadas para a produção de chás alucinógenos em rituais indígenas, enquanto outras são conhecidas por serem tóxicas para rebanhos bovinos.

Nessa família, também são encontrados frutos como acerola e murici, que possuem alto valor nutritivo. Ao todo foram avaliadas amostras de 139 espécies – a maior pesquisa já realizada com essa família botânica – que foram coletadas em todos os biomas brasileiros.

Os extratos das folhas das plantas foram enviados à Universidade de Brasília (UnB), onde foram testados contra as larvas do Aedes aegypti que são cultivadas em laboratório, sendo que um dos compostos matou 100% das larvas em 24 horas e outros dois extratos eliminaram 70% das larvas em 72 horas.

“Em análises preliminares, verificamos que essas plantas produzem substâncias potencialmente inéditas, que ainda não foram descritas na literatura”, afirma a doutorando do IQ, Helena Russo.

Segundo a cientista, a espécie mais eficaz contra as larvas é do gênero Heteropterys, comum do cerrado brasileiro e abundante na região de Araraquara.

Agora, a pesquisadora quer descobrir quais moléculas das folhas da planta foram as principais responsáveis por matar as larvas e avaliar a eficácia de diferentes concentrações do composto.

Também pretende testar eficiência dos compostos contra a pupa (fase de desenvolvimento do mosquito posterior a da larva) e, depois, diretamente contra o mosquito adulto.

“Uma possibilidade seria criar armadilhas para atrair os mosquitos para regiões pré-determinadas onde eles colocariam seus ovos em recipientes com esses compostos. As substâncias também poderiam ser aplicadas em ambientes domésticos e, no caso de sua eventual utilização diretamente contra o mosquito, elas poderiam dar origem a um inseticida. As possibilidades são diversas”, afirmou a pesquisadora.

A pesquisa tem financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da agência de fomento norte-americana Fulbright.

Planta do gênero Heteropterys tem potencial para matar larvas do mosquito Aedes aegypti, segundo pesquisa da Unesp de Araraquara — Foto: Helena Russo/Divulgação

Sem energia

A outra pesquisa do IQ quer impedir o mosquito de se desenvolver. Para isso usa de ferramentas da bioinformática para inibir a atividade da proteína responsável por conferir energia ao inseto durante a fase de larva.

A proteína pertence à família das quinases, presente na maioria dos seres vivos, inclusive o ser humano, que possui 520 proteínas desta família, sendo que cada uma exerce uma função diferente.

Já a bioinformática é campo científico que une biologia e computação e que por meio de simulações realizadas em programas de computador, consegue analisar, interpretar e entender como algumas interações biológicas ocorrem e até mesmo comparar a estrutura química de compostos.

A análise do pós-doutorando do IQ Luiz Dutra conseguiu identificar uma proteína quinase do mosquito que possui 70% de similaridade com uma proteína da mesma família presente no organismo humano. Ele então selecionou virtualmente um composto que inibe essa quinase humana em tratamentos contra o câncer e que poderia ser direcionado para bloquear a proteína do mosquito.

“É um planejamento racional porque ambas as proteínas são muito semelhantes, o que aumenta a chance de sermos assertivos na inibição do alvo molecular e, consequentemente, do desenvolvimento do inseto”, explicou Dutra.

Derivada de um grupo químico chamado indazol, a molécula selecionada pelo pesquisador se mostrou eficaz para inibir o desenvolvimento larval de Aedes aegypti de 76% das larvas, em testes preliminares.

“Para um composto que nunca havia sido cotado para essa aplicação, é um ótimo começo. Agora, vamos fazer modificações na estrutura química da substância para tentarmos aumentar sua eficiência contra larvas”, afirmou o pesquisador, que é bolsista do projeto temático ArboControl, sediado na Universidade de Brasília, onde os testes são realizados.

Nas próximas fases do estudo, a proteína quinase do mosquito será produzida em laboratório para que seja possível avaliar detalhadamente a eficiência do composto contra ela e validar a relação entre o desenvolvimento larval e a inibição da proteína, além de garantir que ele não seja tóxico à saúde humana. Se os próximos resultados forem positivos, a molécula deverá ser testada diretamente contra o mosquito.

“Bloqueando a atividade de uma proteína vital para o mosquito ou para a larva, nós reduziríamos a chance deste vetor adquirir resistência, como já acontece fcom os produtos químicos atualmente utilizados. Nós queremos inibir o desenvolvimento do mosquito logo cedo. Com isso, a ideia é que tenhamos uma menor circulação de vírus”, afirma o pesquisador.

Ambas as pesquisas em desenvolvimento no IQ são orientadas e supervisionadas pela professora Vanderlan.

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