Professora dá aula na calçada para alunos que não têm celular ou internet

Marcela Cristina Vicente alfabetiza crianças de 7 anos e sentiu necessidade de ajudar quem não tinha estruturas para aprender conteúdo online. Escolas estão fechadas desde 23 de março.

Por Gabrielle Chagas, G1 São Carlos e Araraquara

Fora da sala de aula há quase cinco meses, a pedagoga Marcela Cristina Vicente, de 36 anos, adotou uma nova estratégia para continuar ensinando seus alunos de 7 anos que não têm equipamentos eletrônicos ou internet para acompanhar as aulas online, em São Carlos (SP). Todas às segundas-feiras, ela visita as casas dos estudantes e realiza as atividades de alfabetização na calçada.

O caso de Marcela foi citado na sexta-feira (7) durante o discurso do secretário estadual da Educação de São Paulo, Rossieli Soares, em coletiva de imprensa como um exemplo da dificuldade de acesso ao ensino por todas as crianças durante o período de quarentena.

clique na imagem e saiba mais

A suspensão gradual nas aulas de escolas públicas e particulares de São Paulo começou a valer em 16 de março e, desde 23 do mesmo mês, as portas estão fechadas como medida de segurança contra o novo coronavírus. A previsão é que elas retornem em 7 de outubro.

Em São Carlos, até domingo (9), o município havia registrado 1.613 casos, incluindo 27 mortes em decorrência da Covid-19.

Professora de São Carlos dá aula na calçada para alunos que não têm celular ou internet — Foto: Arquivo pessoal

Atendimentos na calçada

Marcela é professora da escola estadual Professor Archimedes Aristeu Mendes de Carvalho, localizada no Parque Residencial Maria Stella Faga, e leciona para o segundo ano do ensino fundamental.

Desde o início da quarentena e fechamento das escolas, a professora tenta se adaptar às mudanças e alfabetizar as crianças a distância, sem perder a qualidade do ensino. No final de maio, Marcela percebeu que alguns alunos continuavam sem participar das aulas por causa da falta de estrutura.

“Eu fiquei me perguntando como eu faria com essas crianças. Então eu perguntei para a minha coordenadora se eu poderia ir até as casas e ela respondeu que era uma decisão minha, por causa dos protocolos, e eu decidi que ia. Então eu perguntei para os responsáveis e eles também deixaram”, contou.

No começo de junho, Marcela começou os atendimentos presenciais, nas calçadas das casas de pelo menos oito alunos que estavam com dificuldade. Segundo ela, as aulas são feitas fora das casas e de máscaras para evitar a disseminação do novo coronavírus.

Além de ir até as casas, Marcela procurou os responsáveis, tios e primos das crianças que estavam com dificuldade para pedir ajuda durante as atividades e intermediou doações de equipamentos.

“Eles estão na fase de alfabetização, que é um trabalho que tem que ser bem direcionado e o online deixou tudo muito difícil. A escola fica em um bairro periférico, então eles são muito carentes e não só de condições financeiras, mas de tudo”, contou.

Hoje, a professora continua indo até a casa dos alunos que têm dificuldades. Para ela, é importante a criação do vínculo com os estudantes.

“Eu fiz isso porque eu gostaria que alguém fizesse isso pelo meu filho se eu não tivesse nenhum acesso, você acaba se colocando no lugar do outro. Eu me sinto muito bem em poder ajudar eles”, disse.

Marcela com os alunos em sala de aula antes da pandemia — Foto: Arquivo pessoal

Experiência

De acordo com a professora, a iniciativa trouxe uma experiência completamente diferente da que ela vive há quase 15 anos como docente e fez com que ela se aproximasse ainda mais da realidade de cada uma das crianças.

Em um dos atendimentos presenciais, Marcela contou que ensinava sobre gêneros textuais, quando foi surpreendida por um comentário.

“Eu levei uma receita de brigadeiro para eles conhecerem a estrutura e um deles me falou que nunca comeu um brigadeiro. Então eu fui ao mercado comprar as coisas e pedi para que, além de aprender a fazer uma receita, ele ia fazer o brigadeiro. Ele ficou muito contente. Foi muito legal, são coisas que a gente não espera, que marcam”, contou.

A maior dificuldade encontrada, segundo a professora, é concretizar o processo de alfabetização, porque muitas vezes os responsáveis pelas crianças também não conseguem ajudá-las durante as tarefas.

“Quando você faz um atendimento individual, você consegue fazer com que essa criança avance, então mesmo estando fora da sala de aula, esses atendimentos estão sendo bons para eles, eles estão avançando”, disse.

A expectativa, agora, é que as coisas voltem ao normal e que todas as crianças possam ter.

“A alfabetização é muito importante e a gente fica receoso de não conseguir voltar. Mas eu espero que as coisas voltem ao normal. Enquanto isso eu vou aprendendo mais e mais com eles”, disse.