Secretaria de Agricultura e Abastecimento apoia pesquisas sobre a atemoia em SP

Produto está disponível comercialmente graças às tecnologias e à orientação técnica geradas por pesquisadores da Pasta.

Em plena época de colheita, a atemoia, fruta da família das anonáceas, habita o imaginário de muitas pessoas como fruto da lembrança de pés no quintal dos avós, mas como produto comercial, com destaque nos mercados interno e externo, está nos campos de centenas produtores graças às tecnologias e a orientação técnica geradas por extensionistas e pesquisadores da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado.

Chama a atenção a aparência diferenciada, com salientes gomos na casca; no interior, o que aguarda o consumidor é uma polpa macia e branca, um creme doce, e o que muitos não sabem, um valor nutricional elevado, com reconhecidas propriedades nutracêuticas.  A fruta é cruzamento entre a pinha, de origem tropical, e a cherimoia, planta da família das anonáceas, de clima mais frio, que não tinha plantio comercial e pode ser cultivada em climas tropicais, portanto, em grande parte do território brasileiro.

clique na imagem e saiba mais

“O cenário positivo só foi possível por conta do trabalho realizado pela Pasta há mais de 70 anos, desde a introdução no Brasil pelo Instituto Agronômico [IAC] na década de 1950, visando a avaliar seu comportamento em plantios em São Paulo, em especial no Vale do Paraíba, e pelos trabalhos do Núcleo de Produção de Mudas de São Bento do Sapucaí, ligado à Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), que, a partir da década de 1980, fez a introdução de material e manutenção de bancos de germoplasmas e de matrizes que fornecem material de propagação para viveiristas, bem como gerou um pacote tecnológico para produção de mudas e manejo dessa fruta, cujo cultivo comercial até então era inviável”, explica Silvana Catarina Sales Bueno, engenheira agrônoma da Secretaria, que atua no Núcleo de São Bento do Sapucaí.

Manejo

A agrônoma ressalta ainda que, nesse período, o manejo não era viável economicamente para os produtores e não havia um porta-enxerto adequado que se adaptasse à região Sudeste. “Foi quando o engenheiro agrônomo Takanoli Tokunaga [hoje aposentado, mas que atuava como diretor no NPM São Bento de Sapucaí] iniciou os primeiros experimentos com araticun-de-terra-fria e mirim, plantas nativas tolerantes às brocas que infestam a planta da atemoia. Os testes foram positivos e percebeu-se que os araticuns, por conta de sua rusticidade e adaptação na região, seriam os porta-enxertos ideais da variedade. Até hoje eles são responsáveis pelo sucesso da atemoia paulista”, lembra.

Desde então, a fruta passou a estar mais presente na mesa dos brasileiros, gerando renda e emprego no campo. Em São Paulo, que alterna o posto de maior produtor do país com Minas Gerais, são mais de 400 produtores que a cultivam em uma área de mais de 800 hectares.

Adailton Macabelli cultiva a fruta há dez anos no município de Leme. “Sou citricultor há mais de 20 anos, mas com o avanço do greening [doença que causa grande dano à citricultura] decidi investir em outras frutas. Nesse momento, o trabalho dos extensionistas da CDRS foi fundamental, pois além de acompanhamento técnico pude ter acesso às mudas de excelente qualidade do NPM de São Bento do Sapucaí para formar o pomar. Também participei de capacitações, as quais me ajudaram a ter uma melhor gestão e aprimorar a produção. Atualmente, cerca de 80% da minha produção é comercializada via Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo [Ceagesp], mas tenho esperança de que, após esse período de pandemia, possa começar a exportar”, conta.

Nos últimos dez anos, as ações relacionadas ao desenvolvimento desse cultivo resultaram em um incremento de mais de 1.000% no volume de fruta produzida, pelo fato de a Secretaria ter firmado parcerias com universidades, entidades de pesquisas de outros estados, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), fruticultores e outros envolvidos com a cadeia produtiva, a qual agora está estendida por vários estados brasileiros, para atender a demanda por tecnologia e ajustes no manejo, de acordo com as exigências socioambientais e dos países importadores.

“Ações que possibilitam ao produtor rural ter mais opções em relação a cultivos de risco como a ameixa e os citros, trocando pelo cultivo da atemoia que é rentável, sustentável, socialmente justo e tem alavancado o sucesso de muitas famílias em todo País, mantendo e/ou trazendo seus filhos para o campo, ou seja, promovendo a sucessão rural”, pondera Silvana.

Parceria

Uma parceria realizada entre pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), extensionistas e produtores da região de Itapetininga e de Sorocaba, uma das principais produtoras da fruta no estado, tendo o município de Pilar do Sul como destaque, resultou na elaboração de ferramenta digital que indica os níveis de nutrição da planta.

Denominada CND (sigla em inglês que significa Diagnose de Composição Nutricional), essa ferramenta está disponível gratuitamente para os produtores no site da Unesp (https://www.registro.unesp.br/#!/sites/cnd/).

“O CND Atemoia, de fácil utilização, mostra ao fruticultor o que está faltando e o que está sobrando em termos de macro e micronutrientes, facilitando a busca pelo equilíbrio nutricional das plantas, peça-chave para a máxima qualidade e produtividade dos pomares”, explica Luiz Carlos de Carvalho Leitão, diretor da CDRS Regional Itapetininga, um dos autores desse trabalho, informando que os produtores interessados em mais informações podem entrar em contato pelos e-mails edr.itapetininga@cdrs.sp.gov.br ou danilo.rozane@unesp.br.

Mercado interno e exportação

O investimento em conhecimento, tecnologia da produção e comercialização, que resultaram em excelentes números de exportação nos últimos anos (no momento, por conta da pandemia de COVID-19, houve uma retração no comércio exterior) consolidou o que especialistas da área de fruticultura vêm apontando nos últimos anos: a atemoia brasileira tem se destacado nos mercados nacional e internacional com grande potencial de agregação de valor, geração de renda e emprego, movimentando os elos de uma extensa cadeia produtiva.

O crescimento do cultivo do produto no Brasil deve-se especialmente à capacidade de produção em diversas épocas do ano, à alta produtividade e à possibilidade de produzir mais de uma safra ao longo do ano.

“O cultivo alcança, em média, bom preço no mercado [exceção neste momento de pandemia], pelo seu sabor diferenciado e o potencial de aumento no consumo, visto que muitas pessoas ainda desconhecem essa fruta, mas quando a conhecem ‘tornam-se fregueses’”, diz Silvana, que além de técnica especializada na cultura, também é produtora.

Corroborando com esse pensamento, o produtor de Jarinu Waldir Parise pondera. “Somos uma família que trabalha com agricultura há quatro gerações, sendo a nossa principal cultura o pêssego. Mas há cerca de dez anos tivemos maior contato com a atemoia, em visitas a outros produtores e eventos realizados pelo Núcleo de São Bento do Sapucaí, cujas pesquisas e trabalhos técnicos são essenciais para os produtores. Nos apaixonamos pela fruta e por seu sabor incrível e, mesmo verificando que ela não era tão conhecida, enxergamos o seu potencial”, conta o produtor, que hoje exporta atemoia para o Canadá, o Reino Unido e até o Oriente Médio.

Para isso, foi preciso muito investimento em manejo da produção, tecnologia e profissionalização em todos os elos, do plantio à comercialização. “Produzimos em cerca de 10 hectares, tendo, atualmente, 5 hectares em produção, com uma produtividade de 25 a 30 toneladas por hectare. Adotamos todas as tecnologias de produção e equipamentos, com especial atenção para a colheita e pós-colheita, como compressor de ar para limpeza individual de cada fruta e máquinas eletrônicas de classificação, além de seguir um rígido programa de sanidade”, completa.

Comercialização

Hélio Satoshi Watanabe, engenheiro agrônomo do Centro de Qualidade Hortigranjeiro da Ceagesp, aponta que a fruta teve um grande crescimento na comercialização nos mercados interno e externo.

“A atemoia comercializada na Ceagesp ocupa a 26ª posição entre 72 frutas, com volume de 2.655,01 toneladas, movimentando mais de R$ 18 milhões. Nos últimos anos, temos visto um grande incremento também nas exportações”, informa o agrônomo.

“A classificação adotada no mercado ainda é subjetiva, sendo preciso, por parte de todos os produtores, independentemente do tamanho da produção, a definição de padrão em aspectos como uniformidade no tamanho, sabor, coloração e embalagem. Outro fator importante é criar um vínculo de confiabilidade de qualidade com os consumidores, uma marca própria”, pontua.

O agrônomo reforça que os cuidados com o fruto após a colheita são indispensáveis. “Como a fruta requer tratos culturais intensivos para possibilitar altíssima qualidade, é necessário investir cada dia mais em tecnologia de produção, embalagens e transporte adequados, mão de obra especializada e capacitada, gestão e profissionalização, dentro e fora da porteira”, diz.

Outro fato interessante, levantado por Luiz Leitão, da CDRS Itapetininga, é que a planta começa a dar frutos entre o 4° e o 5° anos de plantio, porém, com o manejo correto, há registros de produção já no terceiro ano, com frutos em escala comercial.

Alimentação saudável

As plantas da família das anonáceas, a qual pertence a atemoia, apresentam características nutracêuticas, principalmente antidepressivas e antitumorais, reconhecidas por pesquisas internacionais.

“Neste momento, em que o distanciamento social pede maior reforço da saúde, com atenção especial para a mental, consumir frutas como atemoia, traz benefícios excelentes, para além da alimentação saudável”, avalia Silvana Bueno, ressaltando que a fruta é rica em vitaminas e minerais e os açúcares que a compõem são uma mistura de frutose, glucose e sacarose que, em quantidades adequadas, promovem energia.

A agrônoma destaca uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que a fruta possui ação antioxidante e compostos anti-inflamatórios, que previnem doenças como arteriosclerose e inflamações como artrite e artrose.

“Os pesquisadores analisaram a fruta desidratada e concluíram que a polpa tem tanto potássio como a banana; já a semente tem ácidos graxos como ômega 3 e 6, nutrientes encontrados em alimentos como azeite, que diminuem o colesterol ruim sem alterar o bom, prevenindo doenças cardiovasculares. Eles também descobriram que a casca é mais rica que a polpa em nutrientes, tendo compostos bioativos que fazem bem a saúde, podendo ser usados nas indústrias farmacêutica, de cosméticos e alimentos”, enfatiza.

Os interessados em mudas de atemoia e mais informações podem contatar o Núcleo de São Bento do Sapucaí da CDRS. Por causa da pandemia de COVID-19, o retorno das vendas por e-mail ou telefone, com agendamento de retirada, está previsto para agosto. O contato poder ser feito pelos números (12) 3971-2046/1306 ou npmsaaobentodosapucai@sp.gov.br.