Soldado da PM denuncia tenente-coronel por assédio sexual, ameaça de morte e estupro após recusa

Em março, comandante conseguiu o telefone da soldado e passou a enviar mensagens de cunho sexual — Foto: G1 Santos

Soldado chegou a se afastar por cerca de dois anos e meio e ataques cessaram. No entanto, ela voltou à ativa em março, momento em que o superior conseguiu seu número de celular e retomou as investidas.

Por Juliana Steil, G1 Santos – Uma soldado, lotada atualmente no 45° Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPM/I), em Praia Grande, no litoral de São Paulo, denunciou o superior por assédio sexual e ameaças de morte em mensagens de aplicativo fora do horário de serviço, além de perseguição no trabalho, quando ela atuava na Capital. De acordo com a PM, foi aberto um inquérito na Justiça Militar para apurar o caso, e o oficial foi afastado do comando.

A soldado relata episódios de investidas sexuais, principalmente por mensagens, ameaças por áudio, humilhação em frente aos seus colegas e até mesmo sabotagem quando se recusou a ceder aos pedidos de seu superior.

As investidas pessoais do coronel à soldado Jéssica Paulo do Nascimento, de 28 anos, começaram em 2018, segundo ela contou nesta terça-feira (27). Ele havia acabado de assumir o comando do Batalhão da Zona Sul de São Paulo, quando passou pelas companhias para se apresentar aos policiais militares e a conheceu.

“Em um momento em que a gente ficou um pouco sozinho, ele assim veio em uma total liberdade, uma intimidade. Mas a gente nunca tinha se visto, né? E me chamou para sair na cara dura”, relembra.

Ela disse ao superior que era casada e tinha filhos, recusando o convite. “Depois desse dia, minha vida virou um inferno“, desabafa. “No outro dia, ele já começou a me perseguir no serviço”. A perseguição teria resultado, segundo ela, em um episódio de sabotagem, em que ele impediu toda a companhia dela a prestar um dos testes físicos do concurso público para o Corpo de Bombeiros, que ela tanto queria.

Depois disso, ela ainda chegou a ser transferida para outra companhia, longe de sua residência. “Eu, na época, estava com meus filhos bem menores, um tinha um ano e o outro, dois anos”, diz. Ela relata, ainda, que após esta transferência, marcou uma reunião para conversar com o comandante, mas que foi humilhada na frente de outros quatro colegas de farda.

“Ele me humilhou demais, me rebaixou, me comparou com uma vagabunda. Saí de lá [da reunião] me sentindo pior que um lixo”, desabafa.

Investidas por mensagens

Após a humilhação sofrida na reunião, que havia marcado para tentar resolver a situação, a soldado conta que precisou de atendimento psiquiátrico e foi afastada dos serviços por seis meses. Depois disso, para evitar ainda mais a perseguição do coronel, a soldado conta que tirou uma licença sem vencimento de dois anos.

“Pensei: ‘nesses dois anos ele vai se aposentar, vai me esquecer e vai me deixar em paz…”, só que o tiro saiu pela culatra porque ele ainda estava na ativa”, relembra.

Foi neste período em que ela se mudou para o litoral paulista com a família, e passou a tentar uma nova transferência, da capital para a Baixada Santista. Com o fim da licença, ela voltou para a corporação em março deste ano.

No fim do mês, o comandante conseguiu o número de celular dela e passou a fazer investidas sexuais cada vez mais insistentes, prometendo sustentar os filhos da soldado, promoção dentro da corporação e a transferência que ela queria.

“Eu pensei que precisava de provas, porque ele sempre ia fazer isso e ninguém ia acreditar. Entrei em contato com um advogado e ele me orientou a ver até onde ele iria, deixando ele falar”, conta. “Foram coisas muito baixas. Me ameaçou de estupro e de morte”.

As ameaças de morte vieram também por áudios. Em uma das falas, o comandante afirma que “não existe segredo entre dois, um tem que morrer” e “quem não tem problema na vida, está no cemitério”.

Sequência de mensagens recebidas pela soldado quando comandante descobriu que ela não iria à encontro — Foto: G1 Santos

Denúncia

O comandante prometia à soldado que ele a ajudaria a conseguir a transferência dela para o litoral paulista, no dia 2 de abril. A única condição é que ela deveria ir, com ele, ao Departamento Pessoal de Polícia, que fica em São Paulo.

Um dia antes de ir, ela soube que o DP estaria fechado por conta do feriado da Sexta-Feira Santa e, com a confirmação que ele mesmo deu quando confrontado – que a levaria para um hotel -, a soldado decidiu formalizar uma denúncia na Corregedoria da Polícia Militar sobre o comportamento do superior.

Comandante afastado

Procurada pela nossa reportagem, a Polícia Militar esclareceu, por nota, que recebeu a denúncia e imediatamente instaurou um inquérito policial militar para apurar rigorosamente os fatos. 

O oficial foi afastado do comando do Batalhão e a investigação é conduzida pela Corregedoria da Polícia Militar. Segundo a corporação, todos os fatos são sigilosos, conforme prevê a legislação. Tentamos contato, por telefone, com o tenente coronel citado na reportagem. No entanto, até a última atualização, não obteve retorno.

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